Coragem para ir embora

Ei tudo bom? Sou eu novamente!


Você já se pegou deitado na sua cama olhando para o teto e pensando como seria sua vida se fosse embora para algum lugar?


Vila Velha. Sou forasteira aqui. Nasci no interior do Espírito Santo, uma pequena cidade produtora de café às margens do Caparaó. Iúna. Após divórcio minha mãe se mudou para os pés da capital, onde minhas irmãs outrora vieram para estudar e trouxe consigo esta aqui, ainda uma criança de 11 anos. Eu não sabia o que era mundo. Nunca tinha posto os pés a alguns quilômetros a mais da minha cidadezinha. Lembro-me que ao descer a serra no caminhão que trazia nossa mudança, observei lá no horizonte despontar os primeiro raios de sol da "metrópole", que vinham aos poucos riscando o céu ainda bem negro com seu azul escarlate, vermelho, laranja e dourado. Eu jamais vou esquecer de tal paisagem. Ali foi quando percebi o quão eu era pequena pela primeira vez. Quando vi o mar pela primeira vez, foi quando atravessei de ônibus a terceira ponte sentido Vila Velha/Vitória, fiquei estarrecida com aquele oceano sob os meus pés e percebi o quão eu era pequena pela segunda vez. O que seria de mim dali para frente?
Os anos foram passando e fui me deixando impregnar pela cultura, vibração, rotina dessa cidade. Sofri muito. Falar o "prozeado rocês"(até hoje descubro que falo palavras que achei a vida inteira estar certo e nem existem, tipo futicar que na verdade é futucar), não sabia mexer em um computador e já fui julgada por "catar milho" no teclado do PC, me vestia mal, tinha vergonha do meu corpo, só usava roupas compridas, blusas de gola alta(a primeira vez que me viram de bermuda pareceu manchete de jornal). Graças a Deus minha mãe sempre nos fez estudar e este foi meu trunfo, sempre gostei muito de ler e aprender, então aos poucos fui me adaptando e ganhei espaço, até presidente da escola fui (não fui lá aquelas coisas de presidente, mas fui rs). Com o passar dos anos, fui me vendo cercada de gente e sendo requisitada em lugares, não sou a mais popular é verdade, mas não posso reclamar que não sou lembrada. Fiz teatro, montei banda, cantei, hoje uso um computador e digito sem olhar para o teclado e até enquanto converso com alguém, comprei meus instrumentos, fiz rádio e TV, fiz meu curso de inglês do governo até o final ( enquanto 90% dos meus amigos largaram) e ainda paguei um particular. Aprendi quase tudo sozinha e ainda ensinei a quem eu pude o que eu sei. Quebrei muito a cara, em relacionamento, em amizade, em teimar fazer algo que eu não devia. Mas aprendi e não cometi erro duas vezes.
Hoje comecei do zero, entrei em um ramo que jamais imaginei trabalhar. Mas tudo tem aberto minha mente para crescer mais e mais. Se quero parar por aqui? Eu amo vila velha e há alguns anos atrás cheguei até a escrever um poema em agradecimento a cidade( infelizmente acho que perdi o poema), sei que se eu tivesse crescido como uma menina inocente do interior minha realidade teria sido extremamente diferente e talvez não tão positiva quanto hoje. Agradeço muito pelas oportunidades que tive aqui, pelas oportunidades que minha família me proporcionou aqui. Mas querer ficar aqui para sempre é outra história. Todos os dias eu vejo o quão sou pequenininha nesse mundo, mas isso me mostra também que se ele é grande eu devo conhecê-lo. Qual a graça de ter tanto e não correr atrás? É a mesma coisa que jogar vídeo game e não zerar. É a mesma coisa que ter um vestido lindo e não usar, é a mesma coisa que ganhar um chocolate e não comer ou trabalhar tanto e não desfrutar um centavo com lazer, ter pernas e não andar. Ah meu caro, pare para pensar que chato deve ser nascer, crescer e morrer num único lugar, com um mundo inteiro a oferecer. Se há quem consiga, parabéns, mas não rola comigo.
Ter coragem de fazer as malas e sair da zona de conforto é difícil, mas todo mundo que eu conheço que se arriscou um dia não se arrepende. Isso não quer dizer que você nunca mais vai voltar. Não há problema algum em ir, chegar lá, ver que não é o que você quer para sua vida e voltar para casa. Mas viver a vida toda pensando em como seria diferente se tivesse feito é que é o ruim. E se isso, e se aquilo. Na moral "se" é uma palavrinha muito ruim pra empregar nesse tipo de frase. Deveria ser exterminada esse tipo de expressão. O resultado sendo positivo ou negativo, jamais deixaria de ser um aprendizado e nunca é tarde demais para recomeçar.
Ter coragem de ir embora é uma dádiva, não um problema, minha família teve coragem de vir parar aqui e até hoje só tem dado certo e não ache que foi tudo flores, mas tem dado tudo certo e tenho certeza que nós quatro faríamos tudo de novo.
Amanhã ou depois não sei, assim que eu tiver oportunidade vou para outro lugar sim. São Paulo, Sul, México, Londres. Eu preciso ir, para saber se vou querer voltar. Amo a pequena cidade onde nasci, mas só volto para passear. Não estou dizendo "desta água não beberei" , só estou dizendo que aqui hoje é o meu lugar e amanhã é mais para frente e avante. Nunca vai me faltar coragem para procurar ser melhor. Nunca.

E aí curtiu essa história longa? Conte sua história, se já foi, se tem vontade de ir, pra onde foi, pra onde iria. Vou adorar saber.

Até + Criaturinhas!

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