Anne with an E / Taynne com E
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| "Anne with an E" é uma série original Netflix/ imagem da internet |
Sonhei, há cerca de dois dias, que estava em uma grande sala
de aula, com muitas cadeiras, o sol lá fora trazia um dourado intenso ao
ambiente e iluminava tudo, a losa era de giz, o professor parecia muito gentil,
a aula muito agradável, eu sentia a brisa fresca e a paz passava por mim
fazendo-me acreditar por um instante que aquilo era real. Eu tenho esse
privilégio de lembrar-me bem das coisas com as quais sonho e também recordo que
nessa sala de aula que possuía inúmeras mesas e cadeiras, abrigava além de mim,
talvez mais uns 3 alunos.
Dizem que sonhamos com aquilo que nos preocupa, com aquilo
que desejamos ou que queremos muito, coisas desse tipo. Quanto ao sonho da
escola, além de ter me dado uma saudade danada de estudar na presença de
outros, também me lembrou de uma vontade antiga. Estudar somente com quem
interessa.
Eu repeti a terceira série, não por burrice, mas por não me
adaptar a sala de aula, por não ser igual as outras crianças, lembro-me de uma
professora sugerir que eu fosse com ela estudar na roça onde as crianças eram
mais “calmas” ou até mesmo em estudar em uma escola para crianças com
necessidades especiais. O fato é que as pessoas achavam que eu portava algum distúrbio.
Hoje concordo que eu tinha algo: eu tinha muita IMAGINAÇÃO. E isso era demais
para eles e para os pequenos filhos deles com pouca ou nenhuma dose desse elemento
tão vital para a felicidade.
Eu nunca possuí dificuldades para aprender, claro que, em
uma matéria ou outra eu tive meus impasses como qualquer outra criança da minha
idade, mas arrisco dizer que eu era até mais competente que a grande maioria. Eu
tive muitas fases na escola, época retraída, época do aluno exemplar, fui problemática,
piadista, turista (eu quase não ia as aulas em alguns períodos). Mas eu
sei que tenho duas ou três professoras que me acompanharam por mais tempo, que
concordariam em dizer que minha criatividade e desempenho quando me entregavam
uma tarefa eram as máximas possíveis, pergunte principalmente a minha
professora querida de português com quem mantenho comunicação até hoje, a minha
de geografia, a de história, a nossa professora “general” de artes, a de
biologia que apesar de nossas diferenças, nos dávamos bem e até uma de matemática
que sofreu, e como sofreu, me explicando tantas vezes quanto fosse necessário
até que eu aprendesse (isso quando eu tinha interesse). Algumas tiveram
facilidade comigo, outras nem tanto, contudo, eu ainda procurava sempre fazer o
melhor, ainda que eu não quisesse estar na sala de aula, ainda que eu quisesse
sumir com 90% dos alunos que tinham na sala e aquilo muito me atormentasse,
ainda que eu faltasse tanto as aulas.
Todo esse transtorno me acompanhou no futuro como adulta, no
mercado de trabalho e ainda me transtorna hoje até na hora de fazer amigos. É claro
que eu aprendi a controlar, saber falar na hora certa, saber que nem todo mundo
tem paciência de ouvir minhas histórias e que o mais provavelmente a maioria não
vai me amar incondicionalmente e fazer questão da minha presença.
Por ser como sou e por ter que aprender a dosar isso, vivi
em dualidade a vida inteira tentando, as vezes não tão silenciosamente
descobrir se eu tinha realmente um transtorno, ou se eu ser como sou é
perfeitamente normal e aceitável a sociedade. Até que veio o dia da resposta...
Ontem eu chorei doses cavalares de tristeza, por estar de
férias em meio a uma pandemia e tomar a decisão considerada mais sábia em não
visitar minha família na capital do espirito santo para não colocar ninguém em
risco. Claro que minhas lágrimas não são atribuídas apenas a um capricho de
querer passear e a busca por diversão, ainda que quem me conheça bem saiba que detesto
me sentir prisioneira e ficar tanto tempo dentro de casa e que para mim é como
se fosse tortura. Ainda assim, depois que as lágrimas secaram e precisando ocupar
a mente, permiti-me assisti uma série que resisti, não sei por qual motivo, por
um tempo em iniciá-la: “Anne with an E”. O primeiro episódio foi suficiente
para me despertar um incomodo, uma lembrança de algo que estava me cutucando lá
dentro há muito tempo e tentando falar comigo para me lembrar de algo e sem
sucesso. Eu sou a Anne.
Graças a Odin não tive a terrível trajetória de vida dela, não
sou órfã e não precisei trabalhar para me sustentar na infância. Apesar de ter
sido criada com um pouco menos de compreensão que eu precisava, tive uma infância
razoável contudo. Mas a sua personalidade não deixa dúvidas que eu sou Anne e não
somente por tentar ensinar meu nome da melhor forma a quem quer que cruze meu
caminho e pergunte-o, mas pela incessante tagarelice e imaginação apontada
acima das estrelas. O próprio texto entrega a afirmativa, com seu extenso vocabulário
e número de linhas exacerbadas e dificuldade de explicar algo de forma objetiva
e sem devaneios, o que para mim é quase impossível.
Descobrir que sou a Anne é mais que um presente. É ter a
oportunidade de alento, saber que não sou uma aberração é reconfortante. Como
vinha dizendo, eu vivia um dilema entre acreditar que ser eu é muito bom, mas
por viver nesse mundo e conviver com as pessoas nele, também acreditar que eu
fosse talvez um problema. Ser feliz e conseguir ser feliz apesar de circunstâncias
diversas é um problema quando as pessoas só conseguem reclamar e viver de
tristeza, para elas realmente deve ser perturbador.
Há vezes que me pergunto como consigo ser locutora de rádio,
ainda que alguém diga: “- Dã tem tudo a ver com uma tagarela viajante como você
né” todavia, para ser um comunicador deve-se haver decoro e controle em tudo
que se fala e a verdade é que para mim não é nada fácil, no entanto sei que
esse foi um presente a mim entregue para me deixar menos deslocada nesse mundo
sem cor, infelizmente, entristece-me saber que mesmo sendo quem sou e
trabalhando com o que trabalho e precisarem que seja assim, ainda tenha que curvar-me
e submeter-me a pessoas amargas com pouca luz.
Ainda houve tempo de terminar a série, foram apenas alguns
episódios que consolaram madrugada afora pela minha “não partida”. Eu adoraria
a viagem, ver a estrada novamente, me regozijar com cada fio de brisa que
percorresse o minha face e cada paisagem já conhecida que tomaria nova forma
sobre a perspectiva de meu olhar e fantasia. Mas em um dos episódios Anne tem
dúvidas e sonhos quanto a ser independente, poder viver por conta própria e até
com a possibilidade de não precisar casar. Eu não sei se essa Anne do século 19
realmente existiu, mas caso tivesse existido alguma, gostaria de ter a
oportunidade de voltar ao passado e avisá-la que poderia seguir firme e
esperançosa, pois esta Anne aqui prova ser possível todos os receios dela. Já
que eu não posso dizer a ela, espero que as Annes do século 21, de 2020, saibam
que podem continuar sendo as Annes que são, com seus corações entregues sem
restrições, vontade de mudar o mundo e muita imaginação para isso.
Não posso finalizar o texto sem antes dizer, que só quem for
realmente bom estará a nossa volta, nos suportar não é mesmo fácil, pessoas
procuram sombra por não suportar o brilho do sol. E agradeço a uma grande amiga
que enxergou que eu sou a Anne sem eu precisar falar com ela. Se uma pessoa
enxerga isto já é o começo.
Eu Sou Taynne com E.


Comigo você pode falar a vontade, você sabe kkkkkkk
ResponderExcluirNós, aqui em casa, sempre te elogiamos por ser muito boa no faz, Taynne com E tem um futuro brilhante, segue firme prima!!