Perdida no traslado




 Aqui é meu local de conforto, as pessoas próximas a mim não vão vir aqui procurar meus desabafos, elas acham que eu abandonei esse blog. De fato abandonei.


Mas hoje aqui é meu porto seguro.


Vila velha, 21 de maio de 2024 e sei lá há quanto tempo sem escrever o que quer que seja. 00:49 tendinite ou reumatismo nas mãos e acabei de assistir "encontros e desencontros" no meu quarto. 



Sophia Copolla, obrigada por esse vídeo.


Dizem que tanto esse filme, quando o filme "Ela" produzido por seu ex marido, retrata a forma de cada um, a dor da solidão de uma separação. Eu não posso dizer que não entendo o que é me sentir sozinha, como a personagem Charlotte se sentiu mesmo estando casada, mas não é muito sobre isso que eu quero falar.

Eu quero falar sobre me sentir sozinha no mundo e precisando fazer algo mais. Vão fazer 2 anos que me separei, que voltei pra grande vitória, que tô trabalhando na capital com o que sempre sonhei, que voltei a viver com minha família. 

Um desastre ecológico esta assolando o nosso país, tivemos uma pequena amostra no espírito santo e uma pancada em escalas incalculáveis no Rio Grande do Sul.

Nenhuma dessas catástrofes atingiu a mim ou  a minha família diretamente (sabemos que de alguma forma atingiu todo mundo), mas aí vem a questão: Eu sou egoísta por não estar satisfeita?

Eu estou há 21 dias de férias aproveitadas e a 9 dias de acabar. Minha sensação é que eu deveria ter feito muito mais nesse tempo e que não farei muito mais até o fim delas. Me sinto péssima em meio a tudo isso me sentir assim, mas eu sinto, sempre sinto, que eu deveria ter feito mais. O pior é saber que eu voltarei ao trabalho e não vai mudar muita coisa.

Assistir a esse filme me deixou tão empolgada, a fotográfica, o ambiente, os atores... tudo me atiçou alguma coisa que tá escondido aqui dentro de mim. 

O filme se passa em Tókio, no Japão, e a diretora te leva junto dos personagens pra um grande passeio turístico, não é só um drama romântico, é muito mais do que isso, você conhece as ruas, a música, a culinária, a paisagem, a dificuldade em se comunicar com outra língua e você sente tudo o que os personagens estão sentindo como se estivesse lá. É como se te transportasse pra dentro do filme e te levasse pro outro lado do planeta, você sente o fuso horário, você sente a confusão e a agitação do hotel. Você vê a angústia do Bob em querer fazer mais do que está sendo proposto, oras, ele é um grande ator de Hollywood, não só um garoto propaganda de uma marca passageira. Ao mesmo tempo que ele quer ir embora, ele se encontra contrariado com a vontade de ficar, quando conhece Charlotte,  que sofre sendo desprezada pelo marido ocupado e que vive dias de solidão num lugar tão tumultuado. Conforme ambos vão se deslocando pelos cenários, que você convive com eles, você tem mais certeza de que não quer ir embora, quer mais, mais apresentações, mais grandes noites, mais comida saudável,  mais saquês em copos de madeira, mais noites calmas e bem acompanhadas no quarto.

Os dois são casados, cada um com suas experiências de vida, ela tem 2 anos de matrimônio e não sabe o que quer da vida, nunca trabalhou, ele tem 25 anos, uma carreria consolidada e sabe muito bem quem é. Mas naqueles dias de solidão naquele hotel luxuoso, um precisa do outro pra sobreviver e, bravo! É uma mulher quem escreve o texto, uma mulher que dirige o programa, uma mulher falando sobre traição e te fazendo torcer pra que isso dê certo. Isso é esplêndido não é? Quando a hipocrisia mora a sua porta, quando você criticava o filme "O pecado mora ao lado". Ela é uma mulher e consegue te convencer que aquilo está certo, que um precisa do outro e você passa pano legal. E você passa pano no ano de 2003. Dói dias atrás eu vi o Bill Murray fazendo papel de um cara Gay nos anos 60 que queria fazer cirurgia de mudança de sexo no filme Ed Wood de Tim Burton, que foi um personagem muito legal, mas eu nunca imaginaria na minha vida que o mesmo ator me faria ficar apaixonada. A diferença da idade dele para Scarlett Johsnsson é bem expressiva, não que isso seja um problema, mas hadiversas situações que se você colocar na ponta do lápis, tava tudo errado, mas ao mesmo tempo tava tudo certo, e você torce pra dar tudo certo, mesmo estando tudo errado.

E ao fim deste filme, meus amigos, o que eu queria era mais, eu não queria que eles fossem embora, eu não queria ir embora do Japão. E minha cabeça efervesceu com tantas questões, que nem sei se sou capaz de disseca-las aqui.

21 dias de férias, mal sai de casa, minhas cia são os personagens de cada filme que tenho assistidos e por vez ou outras os que se arriscam em me assistir em lives do tiktok. Sai duas vezes vendo as mesmas caras de sempre, onde sei que nada de novo vai me acontecer, eu não tenho vontade de sair de casa pra ir dançar a zumba de graça na esquina da minha casa, taopouco na academia que paguei, devo retornar ao trabalho com mais peso e com as roupas mais apertadas.

Quanto tempo mais eu vou ficar presa nessas paredes confortaveis? Quanto tempo mais vou deixar que as grades da minha casa me provoquem uma falsa segurança?

Eu não estou segura aqui, estou correndo o risco de provar da solidão pro resto da vida, eu posso definhar se continuar assim, preciso achar meu Japão,preciso ir pro meu outro lado do mundo, preciso achar alguma coisa que dê fato me balance pra eu começar a me movimentar novamente.

Eu quero ficar apaixonada e apaixonante como Charlotte e Bob. Quero voltar a ser interessante, voltar a me sentir interessante. Eu não quero terminar minha vida em segurança. Eu quero mais, essa segurança é dolorosa demais. Eu quero ser a Charlotte, quero ser o Bob, quero ser o Bill, quero ser a Scarlett, quero ser a Coppolla.

Eu quero ser.

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